O seu futuro eletrônico

“Uma nova civilização está sendo formada - a Terceira Onda. A primeira onda foi agrária; a segunda, industrial; e a terceira é uma nova maneira de viver!”

Alvin Toffler, escritor, em palestra realizada durante a Comdex 1993, São Paulo, Brasil.

Transformação radical dos conceitos artísticos ou científicos dominantes numa determinada época. Revolução. Revolução. Revolução.

Ela está acontecendo neste momento. Chama-se Revolução da Informação e você, leitor, vai conhecer tudo sobre esta revolução, nesta série de reportagens especiais do JORNAL DO BRASIL, com apoio da Embratel. E vai saber como tornar-se parte ativa nela - porque esta revolução não exige as grossas mãos dos agricultores, nem tampouco a despersonalização do indivíduo numa linha de montagem. Está focada em você, seja lá quem você for.

Uma introdução

A história do homem já registra duas revoluções tecnológicas que mudaram inteiramente nossos hábitos de vida e trabalho.

Os primeiros seres humanos eram caçadores e dependiam de animais selvagens e plantas como fontes de alimentos. Estas fontes eram suficientes, apenas, para alimentar pequenas populações, quase sempre nômades. A revolução agrícola aconteceu quando os homens domesticaram os animais e aprenderam a cultivar e a colher. Com maior controle sobre a existência e quantidade de fontes de alimentação, foi possível ao homem pôr fim à vida nômade, e estabelecer comunidades agrárias de forma mais permanente. As cidades surgiram, e um novo avanço tecnológico nos levou a um estágio inteiramente diferente daquele das nossas origens.

O fim do século 19 ficou marcado pela segunda maior mudança na cultura humana - a revolução industrial. Até lá, a maioria das pessoas precisava ser auto-suficiente. Fazia-se a própria comida, teciam-se as roupas e fabricavam-se os instrumentos de trabalho. A mudança para as máquinas significou, para a maior parte das pessoas, um emprego em fábricas e uma vida nas grandes cidades - mais uma vez, outra grande mudança na cultura e modo de viver do homem.

Pois a Revolução da Informação promete alterar nossas vidas de forma tão dramática quanto o fizeram estas duas outras revoluções no passado. Também vai mexer com o poder relativo entre as nações do globo. As nações que primeiro dominaram as técnicas da revolução agrícola, como o Egito, logo se tornaram as maiores forças daquele período. As nações que primeiro dominaram as técnicas da revolução industrial, como a Inglaterra e os Estados Unidos, também se tornaram poderosas naquele período.

As nações que compreenderem e dominarem as técnicas da Revolução da Informação se tornarão líderes no século 21. Assim como ocorreu no passado, as nações se verão diante de uma escolha: adaptar-se e ter sucesso, ou ficar à margem das transformações, tornando-se, em pouco tempo, um grão de poeira na história.

Foi o norte-americano Clifford Lynch, um perito em computadores, quem primeiro observou a importância da semântica da palavra revolução neste contexto. “Há uma revolução em progresso, e uma revolução no sentido mais antigo da palavra: estruturas de poder estão se rearrumando, papéis estão sendo reescritos, às vezes de forma violenta - embora sempre sem uma gota de sangue. Fortunas nascerão, outras serão dizimadas; instituições poderosas desaparecerão e outras tomarão seus lugares.”

O que é informação?

O dicionário define informação utilizando os conceitos de comunicação e recepção de conhecimento, mas o sentido moderno desta palavra é mais difícil de ser compreendido. Não é algo que se possa detectar com os nossos sentidos. A informação não pode ser tocada, ouvida e nem dela se desprende qualquer aroma. Não se pode considerá-la da mesma forma que uma maquinaria. Contudo, está em toda parte, ao nosso redor, todo o tempo. Está dentro deste jornal e nas telas de televisão. Ela nos envolve quando escutamos o rádio ou quando nos encontramos para conversar com amigos, quando trabalhamos ou nos divertimos. Está dentro de nós e é também parte do nosso código genético.

Até a invenção dos computadores, a palavra informação sempre se referiu ao ato pessoal de ganhar conhecimento. Como alguém que leia livros ou se cerque de sábios. Mas os computadores mudaram nossa visão da natureza da informação e, hoje, a entendemos como algo que pode ser coletado, manipulado, trocado e processado.

A informação sempre esteve disponível em meios físicos, como livros, fotografias ou pinturas. Hoje, estes meios físicos estão rapidamente se transformando em simulações baseadas em computador. Uma criança do século 19 ia a uma biblioteca para estudar numa enciclopédia. A informação estava lá, fixa, pelo menos até que outra edição fosse impressa e se tornasse disponível. Atualmente, a criança pode conectar seu computador a uma rede de outros computadores onde exista uma enciclopédia guardada sob a forma digital. A enciclopédia pode ser facilmente acessada, revista em segundos quando for necessário, e as novas informações ou modificações estarão imediatamente disponíveis. A informação adquirida a partir de uma enciclopédia computadorizada pode ainda ser manipulada e processada de uma ou várias formas novas e excitantes, de um modo que jamais foi possível aos livros convencionais.

Uma enciclopédia impressa está limitada às palavras e figuras. A enciclopédia digital permite à criança ver imagens em movimento e ouvir amostras de sons sobre os assuntos que pesquisa. Em vez de apenas ler sobre o compositor Beethoven num livro, a criança da era contemporânea pode também ouvir exemplos de suas músicas.

Hoje, o uso da informação tecnológica se tornou um aspecto singularmente importante na economia das nações e na civilização humana. A informação tecnológica, na forma de um computador, já modificou inteiramente a maneira que muitos negócios operam. E logo modificará virtualmente todos os elementos da vida: nosso trabalho, diversão, técnicas médicas, livros, filmes, música, jornais, revistas, televisão e telefones, entre outros.

O vice-presidente norte-americano Al Gore, o grande estimulador da chamada rodovia da informação em seu país, diz que “ela (a informação tecnológica) trará o progresso econômico, democracias fortes, melhor acompanhamento do meio ambiente, melhoria na saúde e um senso maior de administração neste nosso pequeno planeta.

O carvão e o óleo combustível foram as fontes que alimentaram a revolução industrial. A Revolução da Informação é alimentada pela informação digital que flui através dos computadores - informação que pode ser criada, arquivada, movida, recuperada, modificada e recobrada ao original com uns poucos toques num teclado de computador. Este rio de informação digital, correndo pelo mundo inteiro através dos circuitos de computadores ligados em redes, éa força básica requerida pelos indivíduos modernos, negócios, indústrias e economias.

O dia-a-dia

Os computadores e a Revolução da Informação estão modificando até mesmo os mais corriqueiros aspectos da nossa vida diária.

À medida que ligações internacionais se popularizam e têm seus custos reduzidos, as pessoas escrevem menos cartas e tornam-se mais dependentes dos telefones. Escrever cartas em papel é hoje algo como uma arte em extinção. E os computadores são os responsáveis por isso. Com o devido software (programa de computador - o conhecimento), é possível, de forma rápida e simples, escrever uma carta pessoal sob a forma de e-mail (correio eletrônico). O correio tradicional pode levar dias para enviar uma carta e trazer de volta a resposta. A demora torna a troca de idéias mais difícil. Com o correio eletrônico, é possível completar um ciclo de envio e recebimento em poucos minutos - considerando aí o tempo que o destinatário levará para efetivamente escrever uma resposta, porque o envio em si é coisa de segundos para qualquer lugar do globo, a um custo trivial. A habilidade de trocar informações, de forma instantânea, com pessoas de todos os cantos do globo resgatou algo da arte de escrever cartas (mas não em papel) e deu a estes indivíduos um novo círculo de amigos com os quais não se podia contar antes das redes de computadores surgirem.

Estes novos círculos eletrônicos de amigos são conhecidos como “comunidades virtuais”. Aproximam grupos de pessoas que compartilham os mesmos interesses. Pode acontecer de haver apenas uma pessoa numa pequena cidade que tenha um grande interesse pelas pinturas de Rembrandt. Utilizando as redes de computadores, é possível a esta pessoa encontrar-se (eletronicamente) com centenas de outras ao redor do mundo e que têm o mesmo interesse.

A maior parte das comunidades virtuais existe por interesses recreativos, mas elas também podem ter funções extremamente importantes. Há muitos grupos de pessoas com problemas de saúde que utilizam as redes de computadores para adquirir informação científica e médica atualizada sobre suas doenças. Uma pessoa com câncer do fígado pode entrar em contato, por correio eletrônico, com outras pessoas de qualquer parte do mundo que sofram do mesmo mal. Pode acontecer de um novo tratamento ter surgido na Suécia, por exemplo, mas cujas notícias ainda não se tenham propagado pelas principais fontes de disseminação. As novidades podem ser distribuídas em redes de computadores em segundos e trazer informações capazes de salvar uma vida.

O correio eletrônico também quebra as barreiras da comunicação. Um adolescente com interesse em astronomia pode mostrar-se intimidado de perguntar algo, face a face, a um professor da matéria. Mas o e-mail não identifica idade, sexo, cor ou nível educacional. Assim, o adolescente pode sentir-se à vontade escrevendo uma mensagem com a pergunta para o mesmo professor, uma vez que ambos pertencem à mesma comunidade virtual e o correio eletrônico é essencialmente anônimo por natureza.

Estes elementos são a essência da virtualização. Mais até do que recriar na forma digital a coisa física que conhecemos como uma carta, o e-mail reinventa e melhora características escritas em papel. Sem barreiras de tempo e espaço, e empossado de um poder incomum, o e-mail faz algo completamente novo. A mesma coisa pode acontecer quando os negócios, as osartes e governos renascem na forma digital.

Informação e oportunidade

Talvez a maior de todas as mudanças na informação seja sua disponibilidade numa enorme biblioteca, como a American Library of Congress (Biblioteca do Congresso Americano), que tem mais de 14 milhões de livros e 36 milhões de manuscritos - um mundo de informação. Estes livros, contudo, estão apenas disponíveis para aqueles que visitam a biblioteca em pessoa - e uma só pessoa a cada momento pode manipular determinado livro. A biblioteca do futuro próximo terá seus livros arquivados sob a forma digital. Qualquer indivíduo que disponha de um computador e de uma linha telefônica poderá acessar a biblioteca, mesmo se estiver localizado a quilômetros de distância. Centenas de pessoas poderão acessar o mesmo livro ao mesmo tempo. A informação contida em cada livro poderá ser atualizada instantaneamente, em vez de se esperar que uma nova edição seja impressa. A informação está se tornando mais democrática à medida que se torna disponível a mais pessoas, e a baixo custo. Um estudante do Rio de Janeiro pode hoje conectar seu computador ao computador da Biblioteca do Congresso Americano - onde os resumos dos livros já estão disponíveis sob a forma digital - e ter possibilidades de acessar informações da mesma forma que um estudante de Nova Iorque, Londres e Tóquio.

A Biblioteca do Congresso Americano já está trabalhando para o futuro. “Nosso projeto é criar uma grande biblioteca virtual de imagens digitalizadas dos livros, desenhos, manuscritos e fotografias, que se assemelharão aos originais, mas poderão ser enviadas através de redes de computadores para telas de monitores com alta definição, acessíveis a milhões de estudantes e pesquisadores. Nosso objetivo é arquivar e oferecer acesso até mesmo a músicas e filmes”, diz o diretor James H. Billington.

A crescente disponibilidade de informação também traz oportunidade para aqueles que não podiam dispor da informação no passado. Um investidor nos dias de hoje pode, de modo rápido e simples, acessar grande quantidade de informações sobre uma ação ou empresa do mercado utilizando seu computador para conectar-se aos serviços eletrônicos. Essas informações, antes do surgimento das bases de dados computadorizados, estavam disponíveis apenas para um grupo privilegiado de pessoas.

O computador

O que dá aos computadores o fantástico poder de redesenhar o mundo? Todas as tecnologias que processam informações afetam enormemente as sociedades que as utilizam. A Igreja Católica dominou a Europa por mais de mil anos mantendo o controle sobre as informações. As Bíblias e os demais livros precisavam ser copiados, lentamente, a mão. Isto os tornava muito caros, e apenas os ricos podiam se dar ao luxo de comprar livros. Os padres eram geralmente os únicos membros das comunidades a possuírem uma cópia da Bíblia. Isto significava que as interpretações da Bíblia não podiam ser desafiadas. O controle das fontes de informações significava também o controle das idéias e da cultura.

A imprensa (um processador de informações) de Gutemberg mudou o mundo. Permitiu que fossem feitas cópias baratas de livros, e logo milhões de cópias das Bíblias ficaram disponíveis a custo acessível. Muitas pessoas puderam ter suas próprias fontes de informação religiosa, não controladas pela Igreja Católica, e a Reforma protestante logo teve início. A imprensa e o computador têm sido, provavelmente, as maiores máquinas de mudança da história. Ambas essencialmente democráticas na forma com que removeram o controle da informação das elites em direção às massas.

A revolução industrial teve a sua própria maneira de processar informações. O telégrafo e o telefone foram necessários para lidar com o grande fluxo de energia e matéria-prima nas fábricas, para controlar grandes massas de trabalhadores e para encaminhar a distribuição dos produtos. Os jornais, rádio e televisão foram necessários para que se anunciassem as grandes quantidades de produtos à venda. Ao mesmo tempo, máquinas de somar cuidavam dos inventários e vendas.

Mas o mundo jamais vira algo como os computadores. De longe, a mais poderosa ferramenta jamais inventada para gravar e transmitir códigos ou símbolos de representações do conhecimento humano. Foi a primeira máquina que, alimentada com adequada informação simbólica, pôde estimular o trabalho de outras máquinas, incluindo as imaginárias.

Com o software adequado, um computador pode transformar-se em qualquer coisa imaginável. O computador pessoal pode tocar CDs, trabalhar como uma televisão ou oferecer-se tal qual um pincel e canvas. Pode imitar instrumentos musicais ou a voz humana, pode transmitir conversas telefônicas ou faxes, editar e transmitir imagens de vídeo e música, ou tirar e guardar fotografias de família. Pode organizar enormes quantidades de dados, bibliotecas repletas de livros e coordenar outras máquinas pelo tempo e espaço. Pode fazer voar um avião, da decolagem à aterrissagem, sem que o piloto ponha as mãos em um único controle.

O computador está até mesmo modificando a essência da realidade. Usando dados reais ou imaginários, pode simular complexos processos físicos e criar a chamada “realidade virtual”, que terá qualidade suficiente para nos fazer duvidar se o que estamos vendo na tela de TV é real ou virtualmente real. Talvez logo não possamos dizer a diferença entre um e outro. Quando vistos no filme Jurassic Park, os dinossauros parecem tão reais aos olhos dos espectadores quanto os atores.

A Revolução da Informação chegou e nada poderá ser feito para interrompê-la. Aqueles que aprenderem a conviver com ela terão sucesso.

As próximas reportagens desta série vão falar mais sobre como a Revolução da Informação está modificando nossa vida no dia-a-dia, e os leitores vão poder ficar cientes do que está acontecendo hoje no mundo da tecnologia, dos computadores e da informação.