“Meteu a mão no alforje, tomou uma pedra e arremessou-a com a funda, ferindo o filisteu na fronte. A pedra penetrou-lhe na fronte, e o gigante caiu com o rosto por terra.”
A Bíblia - Samuel I
Na Bíblia, o jovem David enfrentou e venceu o gigante Golias usando a tecnologia da funda. Hoje, pequenas empresas e países estão usando a tecnologia da Revolução da Informação para enfrentar e vencer os gigantes competidores.
Mudanças estão ocorrendo por toda a indústria e entre as nações. A tecnologia da informação é uma funda moderna que permite aos jovens e aos pequenos superarem os velhos e grandes.
David x Golias
Em 1980, a IBM era uma das maiores e mais poderosas empresas do mundo. Seus lucros chegavam a bilhões de dólares a cada ano. Seus empregados somavam centenas de milhares. Era o Golias da indústria de computadores.
Naquele mesmo ano, a Microsoft era uma pequena e esforçada empresa de programas para computadores. Não dava lucros, tinha uns poucos empregados e ainda permanecia desconhecida no mundo. Era um típico David da indústria dos computadores.
A Revolução da Informação pode mudar a ordem do mundo num surpreendente curto período de tempo. Em 1993, o valor da Microsoft, medido pelo mercado de ações, era maior do que o da IBM. Bill Gates, o fundador da Microsoft, é hoje um dos homens mais ricos do mundo. A IBM vem tendo prejuízos de US$ 6 bilhões por ano e se esforça para adaptar-se.
A arena
Nós todos sentimos que as mudanças que nos cercam não são apenas tendências de moda, mas o resultado de grandes forças: a globalização dos mercados; a disseminação da tecnologia da informação e das redes de computadores; o desmantelamento das organizações tradicionais; e uma nova economia, cujas fontes fundamentais de saúde são o conhecimento e a comunicação - e não as matérias-primas naturais e as forças de trabalho.
Cada uma dessas mudanças é uma verdadeira revolução de negócios. E, no entanto, todas acontecem ao mesmo tempo. Rapidamente. Há uma sensação de que os negócios e a sociedade estão em meio a uma revolução, cuja escala e conseqüências podem ser comparadas às da Revolução Industrial. George Bennett, presidente da Symmetrix, uma empresa de consultoria, pergunta:
“Se 2% da população podem gerar toda a comida de que precisamos, o que aconteceria se outros 2% pudessem fabricar todos os refrigeradores e outras coisas também necessárias?” É uma boa pergunta. A maioria dos trabalhadores destes restantes 96%, provavelmente, de uma forma ou de outra, estaria envolvida com a Revolução da Informação.
Os canais de informação são o sistema nervoso dos negócios. Quanto melhor a informação flui, mais competitivos se tornam os negócios (qualquer que seja o porte deles). As novas tecnologias transformaram o mercado nos últimos anos - pense nas máquinas de fax, nos modems de computadores, nas redes de computadores pessoais e nos telefones celulares.
Estas novas fontes de transferência de informação podem dar a competitividade necessária para companhias novas e pequenas.
Livres da burocracia e dos dispendiosos sistemas de informação existentes até hoje, as pequenas empresas podem implementar novas tecnologias mais rapidamente e efetivamente do que os seus grandes competidores.
Os serviços de informação on-line (BBS) dão às pequenas empresas acesso a mercado, informação e oportunidade de negócios como nunca se viu antes, permitindo imediatas ações.
Grupos de pequenas empresas podem trabalhar de forma integrada na troca de informações criando o que está sendo chamado de corporações virtuais, de modo que ganhem poder de mercado e que cada uma das empresas se concentre naquilo que melhor faz.
A mobilidade permitida hoje pelos computadores e sistemas de informação dá chance às pequenas empresas de competir ao redor do mundo sem a despesa de montar escritórios e filiais.
O dicionário define revolução como uma “transformação radical”. A Revolução da Informação não é diferente das revoluções políticas. Em cada uma delas, os antigos líderes e suas formas de fazer negócios são substituídos por novos. Por aqueles que são capazes de se adaptar rapidamente.
Vencedores
Microsoft - Esta empresa é, talvez, a grande vitoriosa da Revolução da Informação. Pelo menos, até esta etapa. A Microsoft é líder mundial, com 44% do mercado de programas de computadores. Com o declínio da IBM, a Microsoft tornou-se, também, uma força dominante em toda a indústria dos computadores. Isto aconteceu em apenas 15 anos.
O sistema operacional da Microsoft, MS-DOS, criado para os computadores pessoais da IBM em 1981, roda hoje em 80% dos 25 milhões de computadores pessoais compatíveis com o padrão IBM vendidos a cada ano. O programa operacional de interface gráfica da Microsoft vende um milhão de cópias por mês. A Microsoft domina o mercado de planilhas eletrônicas (com o programa Excell) e de processadores de texto (com o programa Word).
A Microsoft planeja ser também importante no negócio da informação, fornecendo softwares para a fusão digital de computadores, telefones, televisão e eletrônica.
Os competidores levantaram objeções a muitas das práticas de negócios da Microsoft. Reclamam que é quase um monopólio de programas de computadores. Bill Gates, presidente da empresa, mais de uma vez, declarou:
“Os consumidores não ligam para o fato de outras companhias estarem ou não satisfeitas conosco. Ninguém quer saber disso.”
Embora apresentada pelos rivais como a empresa que deve ser superada, a Microsoft jamais dominará a nova indústria mundial de computadores da mesma forma que a IBM o fez no passado. Gates reconhece isso quando admite que sua empresa não será capaz de manter o alto índice de lucratividade indefinidamente. Mas se a Microsoft tiver um sucesso com o seu sistema operacional de redes, Windows NT, similar ao que obteve com o MS-DOS e o Windows, certamente terá diante de si uma extraordinária nova década.
Gates testemunhou o declínio do poder da IBM num curto período de tempo e expressou temores de que o mesmo possa acontecer à sua empresa. Ele sabe muito bem que as pequenas empresas estarão sempre prontas a reagir rapidamente a este mundo de mudanças da tecnologia da informação. A Microsoft, hoje, não é mais uma pequena empresa. Tem 15 mil empregados e provavelmente enfrentará, cedo ou tarde, os desafios que feriram tão profundamente a IBM.
Intel - Ao superar a NEC e a Toshiba no início dos anos 90, a Intel tornou-se a maior empresa do mundo na fabricação de semicondutores - pela primeira vez uma indústria americana liderou este setor desde 1985.
Sediada na Califórnia, a Intel chegou ao topo do mundo nos chips de computadores investindo pesado em pesquisa (de 10% a 15% de suas vendas) e com investimento de capital (US$ 1,6 bilhão em 1993) que superou as demais indústrias. Suas vendas chegaram a US$ 8,8 bilhões em 1993.
Neste mesmo ano, a empresa lançou o seu mais novo chip, o Pentium, que realiza 100 milhões de instruções por segundo - cinco vezes mais rápido do que o seu próprio modelo anterior, o modelo 486. A segunda geração de chips Pentium - mais rápidos e menos exigentes na alimentação de energia do que os seus antecessores - chegou ao mercado no início deste ano.
A Intel está hoje diante de competidores em duas frentes: o novo Power-PC, da Apple, IBM e Motorola, e os chips compatíveis com o seu próprio produto fabricados por empresas como a Cyrix, AMD e Texas Instruments. Também se vê às voltas com um pequeno defeito (bug) nos seus chips Pentium já instalados em milhões de máquinas em todo o mundo. Para enfrentar estes desafios, a Intel está cortando os preços dos chips e reduzindo os tempos de desenvolvimento de produtos (espera dobrar o desempenho de seus atuais chips em 12 a 15 meses, mantendo os preços atuais).
Motorola - Os brasileiros passaram a conhecer a Motorola pela fabricação de rádios para automóveis, popularizados pelas premiações em jogos de futebol. Mas a Motorola evoluiu tremendamente, embora, de certa forma, continue no mesmo negócio: comunicações móveis. A Motorola é hoje líder mundial na fabricação de telefones celulares, pagers, semicondutores para o setor automotivo e microchips para outros equipamentos que não os computadores. Na fabricação de chips para computadores, a Motorola só perde para a Intel.
Todo esse avanço surgiu a partir de uma receita bem testada: o investimento em pesquisa, que, no caso da Motorola, chega a 10% da receita de vendas. Uma vontade de produzir produtos de qualidade e uma agressiva mentalidade na busca de novas idéias têm mantido este gigante em ágil forma para os exercícios ditados pela Revolução da Informação. A Motorola é um gigante que tem o espírito e a competitividade de uma pequena empresa.
No início de 1993, a empresa anunciou seu primeiro microprocessador resultado da joint venture com a Apple e a IBM. É o PowerPC, que será vendido por cerca da metade do preço do novo Pentium da Intel, embora tenha a mesma velocidade.
Nintendo - A Nintendo é uma vencedora porque se concentrou na parte divertida dos computadores: os games (jogos). É líder no mercado multibilionário de videogames. Controla 90% do mercado japonês e 80% do mundo. Já vendeu 80 milhões de unidades de seu Nintendo Entertainment System (NES).
A Nintendo não pára de produzir novas idéias, entre elas o Game Boy, um videogame portátil, e uma revista que tem 1,5 milhão de assinantes. Embora enfrente a concorrência de outros sistemas de games, como o Sega Genesis, continua a força dominante na mercado.
Perdedores
IBM - Líder da velha indústria de computadores, a IBM jamais enfrentou um desafio tão grande como o de reposicionar-se no mercado da era da informação. Ainda é a maior empresa de computadores do mundo. Mas perdeu US$ 15 bilhões nos últimos três anos. Continua em busca de novas estratégias, mas alguns observadores já se perguntam se a IBM não é grande demais para sobreviver.
Sua burocracia fez com que fosse lenta a reação às tendências da indústria: a de usar máquinas menores e ligá-las em redes (downsizing e networking). Com isso, a IBM viu evaporarem-se as vendas de seus lucrativos computadores de grande porte, os chamados mainframes. Para combater a avalanche dos clones da própria máquina que trouxe ao mercado, o PC, a IBM aceitou a guerra dos preços em 1992. Eliminou 100 mil empregos desde 1986 e planeja cortar mais 25 mil neste ano.
Redirecionou-se para as redes e os programas de computadores. E agora está procurando competir com a Microsoft, através do seu sistema operacional chamado OS/2. Tecnicamente, este sistema da IBM é mais avançado do que o Windows atual da Microsoft. Mas não dispõe de programas escritos para funcionarem nele na quantidade desejada. O OS/2 ganhou terreno com o atraso do novo Windows da Microsoft que está sendo chamado de Chicago ou Windows 95. Poderá ser uma oportunidade para o sucesso do OS/2 no mercado.
A IBM tem problemas, mas ainda é grande. Suas vendas são três vezes maiores do que a da Fujitsu, a segunda maior empresa de computadores do mundo. E apesar das grandes perdas financeiras dos últimos anos, a IBM alcançou sucessos consideráveis em dois mercados em que chegou atrasada: os minicomputadores e as workstations.
Commodore - Um dos pioneiros da indústria dos computadores pessoais, a Commodore concentrou-se em máquinas baratas usadas para jogos. E vendeu milhões delas. O modelo C-64 foi um dos computadores mais vendidos no início dos anos 80. A Commodore, então, reposicionou-se, orientando sua atenção para as máquinas de negócios, com o modelo Amiga. O Amiga surgiu com muitas qualidades inovadoras para o seu tempo. Mas a empresa não conseguiu reagir às vendas dos PCs. Investiu pouco em pesquisa e desenvolvimento e viu suas vendas caírem até que fosse levada à falência no início de 94.
Vencedores ou perdedores?
Apple - É difícil dizer que a Apple é vencedora ou perdedora da Revolução da Informação. Esta empresa construiu seu primeiro computador pessoal em 1976, e pode-se dizer que foi a criadora da indústria. O Macintosh chegou ao mercado em 1984 e foi o segundo grande triunfo da Apple. Ofereceu recursos gráficos e facilidades de uso que não foram igualadas pelos PCs compatíveis por vários anos.
A Apple viveu a década de 80 com grandes lucros e leais usuários. Até que a Microsoft introduziu o seu programa Windows. Com o Windows, os PCs compatíveis ganharam qualidades comparáveis às do Apple Macintosh e por um preço muito menor. A Apple não estava preparada para a competição e de lá para cá tem-se empenhado para voltar ao seu lucrativo status anterior. A Apple continua sendo a segunda maior fabricante de computadores dos EUA, com 13% do mercado contra 13,9% da IBM.
John Sculley, ex-presidente da Apple, foi forçado a fazer grandes mudanças em 1990. Baixou os preços, cortou os custos (até mesmo demitindo milhares de empregados) e introduziu rapidamente novos computadores no mercado. “Naquele momento, percebemos que nós não tínhamos uma empresa capaz de sobreviver”, conta Sculley.
Talvez a grande mudança tenha sido a introdução do Power Mac PC, agora em 1994, que vai substituir a linha de computadores pessoais Macintosh. Estas novas máquinas vêm com o chip desenvolvido pela IBM e Motorola, o Power PC. Outro sucesso da Apple surgiu com os seus computadores portáteis, chamados Power Book.
Na Apple acredita-se que o futuro dará às pessoas acesso a todas as formas de informação - notícias, vídeos e informações de negócios. Para isso, as pessoas precisarão de computadores realmente portáteis que possam carregar em suas mãos (hand-held). A Apple apresentou o seu novo produto nessa categoria, o Newton, e acreditou que teria um grande campeão de vendas. Mas, até agora, o Newton tem sido uma decepção comercial.
O futuro
Em 1984, teria sido uma boa previsão a de que o Apple Macintosh dominaria os computadores pessoais e a Commodore seria a grande líder das máquinas mais baratas para uso doméstico. Os fabricantes de chips japoneses faziam tanto sucesso a ponto de parecer que a Intel não sobreviveria.
Como se vê, todas essas previsões estariam erradas. Prever o futuro para as empresas que produzem a tecnologia da Revolução da Informação é um negócio tão arriscado como as atividades destas mesmas empresas.
Um único padrão de sucesso pode ser previsto sem medo de erros no novo mundo dos negócios: é preciso criar e investir em pesquisa; é preciso saber se ajustar, rapidamente, às condições em mudanças.