O futuro

“Meu desafia ao escrever este artigo é disparar sua imaginação, mas sem alimentar as chamas do ceticismo. Não vou dizer quando as mudanças que descrevo vão acontecer. O futuro chega sempre depois do que eu imagino, mas chegará antes do que ‘você’ imagina, e com mais impacto do que você espera.”

Walter Bender, pesquisador do The Media Laboratory, em seu artigo “Riding the Digital Highway”, publicado na revista Presstime, em maio de 1993

Ao longo desta série de reportagens, falamos, muitas vezes, do futuro. Nunca é fácil falar do que ainda está por acontecer, mas a tentação é grande e escolhemos este tema para completar a série (a reportagem de número 10 será composta por um glossário especial).

O futuro de que trataremos hoje é apenas uma pequena parte do que será nossas vidas nos próximos anos. Vamos falar do futuro da informação, especialmente da mídia (e dos jornais!). Vamos falar dos computadores, claro, mas não destes que precisamos ligar em tomadas e operar com ajuda do teclado ou do mouse.

Vamos falar das máquinas que estarão em toda parte, nos ajudando a ler jornais, mas, também, cuidando de coisas tão prosaicas como o controle do estoque de comida dentro da nossa geladeira.

A era dos ‘Jetsons’

Ubiqüidade vem do latim ubique, que significa em toda parte, onipresente, conceitos que até aqui costumamos associar com a figura divina.

Mas esta Revolução da Informação está nos encaminhando para uma nova fase de desenvolvimento, baseado no crescimento constante do poder dos chips de forma individualizada. Logo não precisaremos mais reunir grandes computadores numa estrutura burocrática de uma instituição central para controlar atividades. É o que se vê com o declínio dos chamados mainframes em favor dos computadores pessoais.

Na mesma orientação, vamos prescindir de redes centralizadas de distribuição de informações, como as televisões de hoje. Teremos em nossas mãos poder computacional suficiente para desempenharmos as tarefas destas redes centralizadas, e teremos ao nosso redor chips em tão grande quantidade, e tão bem mimetizados com o ambiente de nossas casas e nossos trabalhos, que nos transformaremos em uma espécie de Família Jetsons, com os computadores serviçais espalhados por toda parte.

Mediamorphosis

A transformação da mídia não poderá ser apenas uma orientação para o uso das novas tecnologias. Mas - e principalmente -, uma mudança conceitual de troca de ambiente que, se bem executada, estará diretamente voltada para os interesses do consumidor de informação.

O leitor de jornais, por exemplo (ou como quer que chamemos você nos anos em que os jornais aproveitarão os recursos de multimídia e trarão, além da palavra impressa, imagens em movimento e som), ganhará o poder de comando para receber um produto especialmente preparado para ele e por ele.

Esta série de reportagens impressa em papel tem atraído pessoas que muitas vezes não pertencem ao universo de leitores regulares do jornal. Quando um destes leitores vê, por exemplo, a quarta reportagem da série, pode decidir que vale a pena buscar as reportagens anteriores. E fará isso contatando o setor de números atrasados do jornal.

Mas este é um processo que demonstra a ausência de controle do leitor sobre a publicação e a informação que deseja ter. Se formos transformando o jornal na orientação das necessidades deste leitor, daremos a ele, inicialmente, a oportunidade de acessar as reportagens que perdeu a partir de sua própria casa ou escritório, com o uso de um computador, modem, a linha telefônica e programas apropriados para realizar buscas e capturar informações arquivadas eletronicamente.

Uma vez capturadas, as reportagens estariam disponíveis para o leitor, que poderia lê-las na tela de seu computador ou imprimi-las em papel a partir de sua própria impressora.

Um passo além deste seria permitir que o leitor não só tivesse acesso ao texto eletrônico dos arquivos, como, também, o recebesse apresentado em formato gráfico, com o texto, ilustrações e fotografias dispostas visualmente tal qual o jornal impresso.

Seguindo o caminho desta transformação, o leitor teria, então, a oportunidade de assinar o jornal a partir dos temas de seu interesse, recebendo toda e qualquer reportagem ou coluna que contivessem palavras-chaves como, por exemplo, Ciberespaço, Teresópolis, Zuenir Ventura, liquidação, Fórmula I e cachorro.

Mas a palavra liquidação, que pode ter sido escolhida pelo leitor interessado em oportunidades de compra, trará também ao seu jornal notícias sobre a liquidação extrajudicial de instituições financeiras sobre as quais ele não tem interesse. E uma notícia sobre a exigência de licenças muinicipais para os animais domésticos poderia, eventualmente, ficar de fora do jornal deste leitor, embora saiba-se que ele tenha algum tipo de interesse por cachorros (palavra que não aparece diretamente no texto).

É por isso que o próximo passo seria a existência de um mecanismo de aprendizado do jornal. Programas de inteligência artificial permitiriam que interesses, hábitos de leitura e personalidade fossem captados pelo jornal, compondo uma edição realmente personalizada para aquele leitor.

Todos estes passos, factíveis já nos dias de hoje, compõem o caminho para o jornal do futuro. Mas a idéia de ligar um computador, acionar o teclado e ficar preso ao vídeo para ler, na mesa do café (ou no banheiro), o jornal diário combina com esta orientação. Além do mais, se o poder de computação está se tornando cada vez mais barato, a complexidade atingida permite que este se incorpore a baixo custo ao dia-a-dia dos usuários. É o que vai acontecer.

The Tablet

Roger Fidler, 51 anos, é o diretor do Information Design Laboratory (IDL) da Knight-Ridder. A Knight-Ridder é um dos grandes grupos jornalísticos norte-americanos do qual Fidler é também diretor corporativo da área de New Media.

O IDL, que fica em Boulder, Colorado (EUA), foi criado em 1992 para identificar novas oportunidades eletrônicas para os jornais. É de Fidler a autoria do termo Mediamorphosis. Foi este o tema de sua bolsa de estudos de nove meses em 1991 na Universidade de Colúmbia (em Nova Iorque). Ali ele reuniu todas as suas idéias sobre o futuro dos jornais. Mas não é fácil assumir o papel de visionário.

Somente quando o The New York Times fez uma reportagem sobre as idéias de Fidler é que a Knight-Ridder lhe deu crédito e decidiu investir no que se tornaria o IDL. Fidler acredita que uma tela plana, leve e portátil alimentada por baterias de longa duração, se transformará numa espécie de eletrodoméstico de informação pessoal - o Tablet (que se traduz para bloco de papel, tabuleta ou mesmo tablete) -, onde jornais, revistas e livros poderão ser “publicados”.

Em seu último livro, Telescom, George Gilder, que não esconde admiração por Fidler, diz que os jornais eletrônicos serão um meio muito mais efetivo de circular publicidade do que os jornais e as televisões de hoje. Não será preciso se esforçar para que os anúncios chamem a atenção do leitor. Os novos anúncios, segundo Gilder, poderão ser apresentados em seções específicas do jornal eletrônico dos consumidores potenciais. Um simples toque permitiria aos leitores abrir o anúncio e visualizar a apresentação do produto ou serviço.

O protótipo do The Tablet é perfeito para isso. Tem as dimensões e o peso de uma revista como a Veja, mas não está limitado a exibir, toda semana, as cerca de 100 páginas da revista. Tudo é dinâmico, instantâneo e muito simples. Não se liga, nem se instala nada; não é preciso ler qualquer manual, nem mesmo ter consciência de que o The Tablet será, na verdade, um potente computador pessoal e portátil.

Basta apenas comportar-se como um leitor comum, desejoso de receber as informações de modo rápido, simples e, nestes novos tempos, de forma abrangente e profunda, se for necessário. “Nosso objetivo é tornar as coisas tão simples a ponto de qualquer pessoa saber imediatamente como fazer para usar o The Tablet”, diz Fidler que, no início dos anos 80, foi o primeiro a sugerir o uso de gráficos informativos ilustrados por computadores nos jornais.

Fidler prevê que a primeira geração destas máquinas aparecerá em 1996, e o Tablet terá seu preço reduzido até cerca de US$ 500 no ano 2000. Mais um pouco e o Tablet chegará à faixa de US$ 200, que equivale à de um videocassete nos EUA e é o preço de inflexão para que um produto eletrônico chegue às massas. É também o valor que permitirá aos jornais subsidiar suas vendas para criar um novo mercado de leitores do amanhã.

A primeira página de um jornal acomodado graciosamente no Tablet apresenta-se como uma página comum, mas é sensível ao toque em suas áreas de índice, texto e fotografias. A fotografia de um lance esportivo, quando tocada, transforma-se num replay “televisivo” do lance, que pode ser exibido quantas vezes se desejar. Uma notícia pode ser estendida em profundidade na medida do interesse do leitor, e o índice de assuntos exige apenas o toque para que se transforme na página desejada. Naturalmente, o Tablet poderá ler as notícias para os consumidores, que também poderão virar suas páginas ao simples comando da voz.

Não há razão para que apenas um dispositivo como o Tablet represente a convergência do futuro da mídia. O Tablet é atraente para as empresas jornalísticas, pois permite que se mantenha uma clara identidade visual que continuará diferenciando um jornal do outro, ainda que todos sejam feitos com o conceito de personalização do leitor.

Mas é possível dar ao leitor o poder de compor seu próprio jornal e com a sua própria identidade.

The Media Lab

Alguém já disse que uma visita ao The Media Laboratory, no Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Cambridge (EUA), tem o poder de tornar qualquer pessoa impaciente com o resto do mundo.

O que se vê ali, entre holografias gigantes e pessoas caminhando com capacetes que simulam a realidade virtual, é uma espécie de moderno museu do futuro, ao menos na concepção dos pesquisadores de uma extensa lista de 91 projetos divididos em três grandes áreas: Informação e Entretenimento, Aprendizado e Senso Comum e Percepção Computacional. Todos os projetos do The Media Laboratory estão voltados para o objetivo maior que é o de buscar novos caminhos para que as pessoas interajam com a informação.

Por que receber quilos de papel-jornal quando, na verdade, mal se lê 5% do seu conteúdo? Por que não se podem ler notícias que nos interessam publicadas em qualquer jornal ou revista sem que tenhamos que receber edições integrais de todas estas publicações? Por que a videolocadora da esquina tem tão poucos títulos e precisamos esperar que os melhores voltem às prateleiras quando estão alugados por outra pessoa? E por que uma televisão está restrita às imagens da tela plana quando nossos sentidos nos deixam fascinados diante da percepção tridimensional proporcionada por uma holografia?

O desafio no Media Lab é criar condições para que o consumidor faça suas compras de informação sob medida. O chamado “Daily Me”, expressão criada por Nicholas Negroponte, 50 anos, fundador e diretor do Media Lab, está em pleno desenvolvimento.

Criado em 1985, o Media Lab é uma instituição interdisciplinar com um orçamento generoso de US$ 20 milhões anuais para pesquisas. Cerca de 70% dos recursos têm origem em quase uma centena de empresas privadas, que preferem contribuir para as pesquisas da equipe de visionários de Negroponte do que trabalhar com idéias que soam muito audaciosas.

O Media Lab é voltado exclusivamente para o estudo e experimentação das novas formas de comunicação, entretenimento e educação. Entre seus programas de estudos estão a Televisão do Amanhã, A Escola

do Futuro, Sistemas de Informação e Entretenimento e Holografia.

Negroponte, de origem grega, formou-se em 1967, em Arquitetura, no próprio MIT (do qual hoje é também professor de Media Technology). Em 1968, publicou o livro The Architecture Machine, que trazia a semente das idéias dos sistemas computacionais personalizados.

Ele acaba de lançar seu novo livro, Being Digital, desenvolvido a partir de uma seleção das colunas que o tornaram popular, publicadas mensalmente na última página da revista Wired. No livro, ele fala mais do modo de vida digital e das pessoas, e menos de teoria e equipamento.

Para Negroponte, um computador parado à nossa frente, aguardando um sinal vindo do teclado, mouse ou mesmo de uma caneta ótica ou do dedo, é uma máquina pré-histórica. “Não pode ler nossa expressão facial, nem tampouco avaliar nosso estado de espírito pela entonação da voz. Não sabe para onde estamos olhando, e não tem, portanto, condições de servir-nos da forma interativa que seria desejável”, justifica.

Being Digital é, naturalmente, um espelho das idéias de Negroponte e da atividade desenvolvida no Media Lab. Um bit, diz ele, não tem cor nem peso. Pode ser transportado à velocidade da luz e é o próprio estado da existência - sim ou não, verdadeiro ou falso, branco ou preto, 1 ou 0. “É digital e, à medida que os recursos no mundo mais e mais se transformam em formas digitais, nossas vidas se aproximam cada vez mais do estado de vidas digitais.”

Ele imagina que o futuro nos reserva máquinas que compreendem o contexto. Se dirigirmos ao computador uma ordem por voz como “vamos telefonar”, a máquina imediatamente deve acionar o livro eletrônico de telefones. Sua analogia dos bits em movimento não é a de um cano de água, mas a de um teleférico, sempre em movimento constante, enquanto uma ou mais pessoas entram e saem.

De forma similar, bits são reunidos num pacote e estão colocados no teleférico, capaz de entregá-los aos milhões por segundos. Nesta velocidade, faz-se com eles o que se desejar. Não se depende de sua encomenda ou entrega. A televisão hoje, por exemplo, não tem sentido quando se pode encomendar uma hora de programa em poucos segundos.

“Em vez de distribuir mil programas de TV para todo mundo, pode ser melhor distribuir um programa para cada pessoa, em um milionésimo do tempo, ou seja, instantaneamente.”

A mesma teoria se aplica aos jornais. O consórcio de pesquisas conhecido pelo nome de News of the Future, do qual participam vários grupos jornalísticos, além de empresas de software e hardware, está buscando, no Media Lab, novos caminhos para explorar a interação das notícias com o usuário.

Os estudos têm se concentrado em três áreas: compreensão de conteúdo pela máquina, percepção das características do usuário e seleção e apresentação das informações. As experiências com estes conceitos já podem ser feitas hoje por jornais que utilizam plataformas como o World Wide Web, na Internet.

Os jornais concebidos no Media Lab incorporam uma evolução do conceito de windows (janelas), utilizado pelas plataformas gráficas nos computadores pessoais de hoje. É o zoom, que oferece, a qualquer momento, mais detalhes ao leitor.

Os leitores do amanhã

Qual seria a diferença entre um jornal, uma emissora de rádio, TV ou uma revista nestes tempos de multimídia? Qual seria a diferença entre este grupo de fornecedores de informação e as empresas de telefonia celular, pagers, programação por cabo, cotações eletrônicas em tempo real, ou ainda empresas de software, hardware ou serviços e entretenimento on-line?

Não é importante responder às perguntas do parágrafo anterior, mas apenas compreender que este universo está em transformação e a informação é o produto comum a todos os participantes.

Mais ainda: há algo em comum entre todos estes ramos da informação, e é o fato de a plataforma digital estar se transformando cada vez mais no mais simples, barato e poderoso meio de distribuição de informações. Daí o surgimento da expressão Rodovias da Informação, ou Infovias Digitais.

Através delas será possível distribuir a informação demandada pelo consumidor na forma e no tempo exigido por este. A superação das barreiras atuais de capacidade e velocidade de distribuição e armazenamento da informação digital permitirá que se “encomende” o último filme de Spielberg, por exemplo, usando apenas o telefone e as linhas de fibra ótica para receber as mais de duas horas de som e imagem diretamente para nossos aparelhos de videocassete ou computadores.

Peça o filme que deseja, veja o programa de televisão que quiser, a qualquer hora, sem precisar aprender a gravar com o videocassete. Leia qualquer notícia de jornal ou fique permanentemente ligado nas manchetes do dia sem a necessidade de olhar para uma televisão exibindo a CNN.

Apanhadores do campo

Num livro escrito em 1987 sobre o The Media Lab, Stewart Brand cunhou o termo broadcatcher (de catcher, apanhador) para fazer um trocadilho com a palavra broadcaster (irradiador).

Estamos destinados a nos tornar esta nova espécie de apanhadores do campo da imformação

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